Video Games

Replaced – Análise (PC)

Sabe aquele tipo de jogo que você fica por dias degustando após concluir? Pois é. Eu escrevo essa análise em um momento desses. Quando eu terminei Replaced, eu senti um misto de sentimentos. E na verdade, eu ainda estou em processo de achar o sentimento certo que esse jogo causa em mim. 

 

E antes que você ache que eu detestei ele, fique calmo! Replaced é um ótimo jogo dentro da proposta que ele traz e sinto que ele é um respiro necessário nesse mar de jogos que 2026 preparou para a gente tentar dar conta. 

 

Talvez essa análise flua de maneira diferente para você que acompanha nossas análises. Mas eu quero justamente falar sobre esse jogo nesse estado de espírito, porque acho que esse jogo merece ao menos a sua curiosidade e um pouco do seu tempo.


Sem mais delongas, vamos dar um mergulho por esse game e entender porque ele é um dos destaques do ano de 2026. 

 

Ah, o maldito capitalismo!

 

Acho que a primeira coisa que me chamou a atenção em Replaced foi toda a parte gráfica que ele traz como proposta. Por alguma razão, esse jogo me remete a alguns títulos do Playstation original que trabalham essa estética de ambientes 3D com personagens e elementos de cenário com sprites. 

 

Talvez esse seja o principal elemento que salta aos olhos ao experienciar esse jogo é em como ele adota de uma maneira muito inteligente o seu aspecto visual e já de cara quebra cria uma ambientação interessante com “muito pouco” – e eu quero voltar neste “muito pouco” depois.

 

O game se passa em meados dos anos 1980 em um futuro distópico em que os Estados Unidos da América se viu arrasado por um conflito nuclear. Em meio a todo esse conflito, uma empresa renasce das cinzas e adota um nome bastante simbólico para retratar isso: Phoenix Corporation.

O clássico “incidente no laboratório do cientista maluco” é um dos elementos do jogo – Imagem: reprodução

Ela é aquele tipo de empresa muito comum em histórias desse gênero, que tem braços e envolvimento governamental para todos os lados, que vão desde a questão da “segurança” pública, até mesmo em sistemas de distribuição de comida. E vemos todo esse cerco de controle em todos os lugares, a todo momento. 

 

Porém, a Phoenix desenvolveu um projeto bastante ousado: uma inteligência artificial capaz de cruzar dados de compatibilidade genética entre doadores de órgãos chamada de REACH. O problema é justamente como essa questão funciona no universo do jogo: pessoas mais abastadas precisam de um transplante de órgãos. 

 

Logo, REACH busca por um doador compatível, mas que seja de uma classe social mais baixa. Após essa pessoa “servir ao propósito” de ser uma doadora, ela é largada à própria sorte e passa a ser considerado um “descarte”, uma pessoa sem mais valor algum e que não tem mais permissão para seguir morando no grande centro da cidade. 

O que é ser humano para uma IA? – Imagem: reprodução

Entendendo isso, podemos começar de fato a explorar o início do jogo. Aqui, assumimos o papel de Warren, uma espécie de coordenador do projeto REACH. Durante uma incursão no laboratório onde trabalha, Warren está fazendo alguns ajustes na IA e um acidente ocorre, resultando na junção entre o corpo do cientista e a IA como sua personalidade. 

 

Warren/REACH então partem numa fuga para tentar entender o que aconteceu e como ambos serão capazes de reverter esse processo. Durante a fuga, ele (ou eles) conhece Tempest, um aventureiro que está tentando à todo custo derrubar a Phoenix e organizar uma revolta junto com outros descartes.

Ele leva Warren/Reach – que aqui se identifica apenas com a personalidade da IA – para uma estação de trem que serve como refúgio para outros descartes e é aqui que o jogo de fato começa.

 

Uma aventura cinemática distópica

 

Uma coisa eu preciso tirar do meu peito: Replaced não reinventa absolutamente nada. Ele não quer ser um jogo extremamente disruptivo ou tem alguma ambição de ser mais do que ele é. E sim, ele se ancora em ombros de gigantes como Out of this World (ou Another World, como queira) e até mesmo Prince of Persia original. Porém, ele é um jogo cheio de identidade.

 

Voltando àquele ponto da parte visual, ele é um jogo que não necessita de grandes recursos visuais e técnicos para ser bom. Ele faz muito bem o que faz com sua pixel art extremamente bonita – e é sério isso. É aquele tipo de pixel crocante que passa por um trabalho refinado de luz, sombras e efeitos de movimentação que não parecem em nenhum momento aquele tipo de sprite “recortado” na tela. 

Com certeza Replaced vai incomodar aqueles que reclamam de “política nos joguinhos” – o que é ótimo – Imagem: Reprodução.

Reach não só vai conhecer personagens ao longo da jornada para tentar voltar a ser Inteligência Artificial, mas também vai criar momentos interessantes sobre o seu papel no mundo e o que é ser de fato humano.


A personalidade da IA tem um arco crescente em seu desenvolvimento e é muito interessante analisar algumas reflexões morais que rolam em certos momentos do jogo, e que nos fazem questionar o papel que esse tipo de ferramenta tem no mundo.



Afinal, a IA é o grande problema, ou são as pessoas por trás de toda a sua concepção, programação e alinhamento? Longe de mim querer defender um ou outro, porém é interessante como o jogo faz essa abordagem de maneira sutil, mas sem dar uma resposta exata, deixando a cargo do jogador refletir junto com o personagem. 

 

O jogo é dividido em 10 capítulos e boa parte do tempo será entre explorar os ambientes, encontrar upgrades para nossa barra de vida, itens de cura e também documentos que vão explicar mais nuances desse mundo, além de músicas que você pode parar e ouvir numa espécie de “gameboy retrofuturista” que registra informações e te dá acesso à mais sobre o mundo de Replaced. 

Sobre a trilha sonora, ela é muito inspirada na obra de Vangelis, que compôs a trilha de Blade Runner – uma das referências mais óbvias vista – ou melhor, ouvida – aqui no jogo, abusando bastante de sintetizadores e trechos que remetem a esse universo distópico, mas ao mesmo tempo que já ficou para trás.


Porradaria no estilo Batman em pixels

 

Surpreendentemente, o combate de Replaced em muito se parece com o combate visto na série Batman Arkham, em que você tem um número de inimigos ao redor que vão te dar dicas visuais do momento de contra-atacar, esquivar e os momentos em que é possível finalizar o oponente.



Tudo é muito fluido, mas em certos momentos eu achei que o combate se embanana um pouco, pois alguns inimigos iniciam uma ação passível de contra-atacar, e Reach inicia o processo, mas logo é interrompido pelo ataque de outro oponente, quebrando um pouco do foco.

Apesar de poucos chefes, o game possui um combate muito agradável e reconhecível – Imagem: reprodução

Nós contamos com algumas ferramentas, como uma pistola que vira uma espécie de cassetete, mas que no início nos permite finalizar inimigos com um tiro, o derrotando instantaneamente – e isso será muito útil em momentos em que você estiver lidando com inimigos mais fortes. 

 

Sobre os inimigos, a variedade pode decepcionar, uma vez que você vai lidar com boa parte dos mesmos inimigos pelo decorrer do jogo, que são a polícia desse universo. E uma vez que você aprende seus padrões de ataque, e como lidar com vários deles ao mesmo tempo, tudo flui bem. Eu mesmo morri pouquíssimas vezes em combate, ocorrendo umas duas vezes em cada um dos chefes.

 

Sobre isso, é difícil não se decepcionar. Replaced possui bem poucos chefes de fato, sendo relegado a dois chefes, sendo que um deles você enfrenta duas vezes, com outras habilidades. Não que o jogo necessite de inúmeros combates, mas infelizmente toda a parte de porradaria franca fica por conta das hordas de inimigos que você encontra pelo caminho, até o trecho final daquele trecho. 

 

Localização imersiva

 

Talvez uma das coisas mais interessantes de Replaced seja justamente a construção de mundo que o jogo faz através de documentos, notas da imprensa, e até mesmo conversas em fóruns privados sobre os eventos do mundo. Tudo isso é potencializado com uma localização em português que consegue tornar essa experiência bem imersiva.

 

Um ponto interessante é que essa construção de mundo faz uma mescla inteligente entre eventos reais, e personalidades políticas reais com esse universo completamente distorcido de um retrofuturo distópico.

É o que todo gamer espera, Warren! – Imagem: reprodução.



Claro que isso é uma decisão artística dos desenvolvedores, mas o game não conta com nenhum tipo de dublagem ou voz, relegando apenas sons característicos para seus personagens. Com destaque para a personagem Verônica, companheira de Tempest, que teve suas cordas vocais removidas para uma “doação”, o que acabou fazendo com que ela utilizasse um dispositivo eletrônico para continuar conversando. No entanto, ela teve sua carreira como cantora interrompida dado esse fato.

 

No fim do dia, Replaced é muito sobre isso: como seria uma IA aprendendo sobre essas pessoas e enxergando as consequências não se seus atos, mas das decisões de quem a comanda. Se ela tivesse olhos, talvez ela enxergaria o mundo sob uma outra ótica para além de análise de dados e cruzamento de informações? Fica aqui a questão.

 

… E o saldo é?!

 

Replaced é aquele tipo de jogo que aparece vez ou outra para que a gente possa respirar. Ele não busca ser um ponto de ruptura dentro do mercado de games, muito menos reinventar a roda. Mas há um destaque interessante aqui.



Seja para contar uma boa história, seja para nos instigar a pensar sobre os rumos que a Inteligência Artificial tem tomado nas mãos dos poderosos na nossa realidade, Replaced me fez ruminar algumas coisas nesse processo. Processo esse pelo qual ainda estou passando.

 

Eu ainda não sei se eu consigo refletir sobre tudo o que eu experienciei com esse jogo, mas uma coisa é fato: só de ele ter feito isso, acho que já valeu como uma boa experiência marcante desse ano de 2026. E acho que você também deve dar uma chance de subir até essa superfície e respirar um pouco, pois o ano ainda não acabou.

 



Esta cópia de Replaced foi gentilmente cedida pela equipe de relações públicas para a produção desta análise. 

Vinícius Vidal Rosa

Ex-técnico em informática, jornalista formado e apaixonado por games e tecnologia. Faz do seu tempo livre, uma maneira de levar informação e falar sobre o que gosta.

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Vinícius Vidal Rosa

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