Video Games

Mouse: P.I. for Hire – Análise (PC)

Eu não sei você, mas eu cresci vendo desenhos da Disney, que já eram quase avós quando eu os conheci. Aquele tipo de desenho que você via que tinha uma cara de velho, mas ainda assim, era carismático e capaz de te encantar com técnicas tão rudimentares, comparadas com as que temos hoje em dia. 

 

E isso não é demérito nenhum. Mas quando paramos para pensar em como as animações saíram daquela coisa do absurdo, em que todo objeto era capaz de se expressar como um ser vivo, para animações dinâmicas de 5 segundos em cada cena para que toda a dopamina, serotonina e outras “minas” e “ninas” fossem liberadas no cérebro. 

 

Com essa proposta de resgatar aquele estilo de arte que parece ter ficado no passado, Mouse: P.I. for Hire é um jogo que resgata não apenas um estilo de arte, mas um jeito diferente de se fazer videogames e que torna esse processo quase algo artesanal.

 

E para além disso, o game ainda aposta numa mistura bem interessante, como se Doomguy e Minnie Mouse tivessem um relacionamento pelas costas de Mickey, e acabassem tendo um filho, fruto dessa relação.

Não entendeu nada? Pois bem. Pegue seu chapéu, seu sobretudo, coloque um jazz para tocar na sua vitrola e confira a nossa análise de Mouse: P.I. for Hire. 

 

Seguindo os rastros de queijo

 

A primeira coisa que salta aos olhos em Mouse é como ele replica bem o estilo de animação dos anos 30. Mesmo utilizando cenários em 3D, todo o visual do game é em preto e branco e tudo aqui parece uma versão bastante distorcida e adulta de Mickey Mouse. 

 

Nós assumimos o controle de Jack Pepper, um ex-combatente do exército que, após cumprir suas obrigações como militar, decide instalar um escritório de investigação e trabalhar como detetive particular. Porém, os negócios não vão tão bem, até que um caso surge na sua porta: o desaparecimento de um ex-colega de quartel e que agora atua como mágico. 

O jogo possui uma série de documentos que vão te contar eventos que antecedem a história do jogo – Imagem: Reprodução.

Jack então decide seguir os rastros de queijo deixados pelo sumiço de seu amigo, e acaba descobrindo mais furos nesse queijo suíço que é a trama. Aliás, uma coisa bem interessante que Mouse faz é amarrar tudo muito bem, tal qual um queijo trançado delicioso. Porém, isso também pode ser o seu maior defeito: a gorgonzola no meio disso tudo. Porém, mais tarde eu explico isso melhor. 

 

Surpreendentemente, Mouse se prova um excelente boomer shooter – aqueles jogos de tiro em que você terá hordas de inimigos em várias seções e tudo ocorre de maneira rápida e que força o jogador a se movimentar pela arena de maneira ágil e inteligente. Jack é capaz de usar um vasto arsenal de armas que vão desde uma reles pistola, até um canhão de raios congelantes para lidar com os inimigos.

 

Aliás, vale o destaque aqui que todos os personagens presentes no game segue aquela lógica de Wolfenstein, que parecem ser feitos de papel, e todos eles são desenhados e animados com as mesmas técnicas de antigamente, o que mostra não apenas um carinho dos desenvolvedores, mas também uma verdadeira homenagem a forma de se fazer arte daquela época. 

 

O jogo conta com várias fases diferentes, que vão desde um grande estúdio de cinema, até mesmo uma mansão mal assombrada, passando pelos esgotos, e que desembocam em um submarino controlado por um cientista maluco. 

Você contará com um vasto arsenal para dar cabo dos inimigos – Imagem: Reprodução

Acho que uma das coisas que mais me chamou a atenção em Mouse foi certamente a sua trilha sonora. Não me entendam mal, eu adoro a trilha sonora de Cuphead, que é outro jogo que está na mesma sintonia de Mouse, por tentar emular essa cara de desenho antigo, e que traz uma trilha sonora que casa muito bem com essa estética dos anos 1930.

 

No entanto, eu acho que Mouse faz muito bem utilizar aquela melodia que se faz presente a todo momento –  o famoso “leitmotiv” -, e que já é entregue assim que o jogo inicia, e como a trilha sonora tem uma crescente nos momentos de maior ação, e como esse trecho do leitmotiv fica num looping que não se torna cansativo, mas que contrasta bem a exploração durante esses trechos. 

 

Mouse é aquele tipo de jogo que pega todas os tropos das animações – inclusive seus vilões e situações absurdas, como uma arma com um cérebro que fala, mesmo sem ter boca – e coloca aqui, criando uma história que parece um queijo coalho assado na churrasqueira… Mas que passou um pouco do ponto. 

 

Os problemas de ritmo desse jazz pegajoso

 

Talvez a minha principal crítica a Mouse seja justamente a sua história. Não me leve à mal, ela de longe não é uma história ruim. Muito pelo contrário: eu acho que ele faz um ótimo trabalho de começar uma trama com todo esse ar de cinema noir e vai se expandindo até chegar em uma trama política muito bem elaborada sobre controle de massas através do financiamento e entranhamento de um partido abertamente fascista nas mais variadas fontes de poder. 

 

Porém, eu sinto que o ritmo como essa história é contada, em algum momento me perdeu. Não sei se foi pelo fato de cansar um pouco de como o andamento da história acontece, ou se o próprio looping de gameplay acabou fazendo com que eu me importasse mais em descer a salpicada de parmesão nos adversários. O fato é que chegou um momento que eu só queria que o jogo chegasse a um desfecho, e ele se estendeu por quase 13 horas no contador interno do jogo.

O fio condutor é a trama. Porém, em certos momentos ela acabou me cansando, apesar de ter temas interessantes – Imagem: Reprodução.

O que, de novo, eu não julgo ser algo ruim. Mas ela não funcionou tão bem para mim. E acredito que um dos fatores que também acabou contribuindo um pouco para que a história do jogo me cansasse foi porque eu fui do Investigação Póstuma diretamente para Mouse: P.I. for Hire. E tudo bem, você não vai me ouvir – ou melhor, LER – dizer que eles são games equiparáveis.

 

Exceto pelo visual em preto e branco, e ter uma história que gira em torno de uma investigação, enquanto tudo isso é embalado por músicas que resgatam o sentimento da época, né?

 

Talvez se eu não tivesse jogado ambos os jogos de forma tão próxima, quem sabe Mouse tivesse clicado mais comigo como eu gostaria. Afinal, que outro jogo você conhece que coloca uma adaptação de nome como “Partido RepubliRato” para apontar quem são os fascistas daquele universo, não é mesmo? 

Não faltam referências a filmes, desenhos e VIDEOGAMES também! – Imagem: Reprodução.

Uma coisa que também não me passou despercebido foi a localização do game. Ela é muito bem feita e acho que foi um dos poucos jogos que eu me peguei observando essas adaptações de nome – que outro jogo você conhece que pode empunhar uma arma chamada “Canhão Tonhão”, não é mesmo?! -.

 

No entanto, eu sinto que em alguns momentos essa localização pode ter sido feita de uma maneira meio apressada, pois alguns trechos ainda mantém alguns pronomes e artigos do inglês.

E tudo bem! Nada que algumas correções futuras não resolvam o problema. Eu só achei estranho que não houve tradução para as tirinhas que você encontra pelo game, nem para alguns trechos de diálogos mais ao final do jogo, em certos momentos da batalha final. 

 


IGNorância com ratos?

 

Quem sou eu na fila do queijo para fazer uma crítica da crítica, não é mesmo? E eu não podia deixar de comentar isso aqui, apesar desta análise ter foco no jogo, me soa muito curioso como funciona os critérios de uma análise de um site tão duradouro como o da IGN gringa.

 

Eu não sou ninguém relevante ao ponto de fazer eles se importarem com a minha opinião. E tudo certo. Afinal, eu faço análises para mostrar as minhas impressões ao meu público que eu cativei ao longo desses quase 14 anos de site – que não são muitos, eu sei. 

Encontre provas e monte seu quadro de investigação, afinal, você é um detetive atrás de uma trilha de queijo muito mal cheirosa – Imagem: Reprodução.

Me soa muito estranho quando eu vejo um portal enorme, com certa relevância e que já foi o modelo de outrora, se incomodar tanto com piadas sobre queijo… Em um jogo de uma sociedade de ratos. Me perdoem a pergunta, mas a pessoa realmente jogou o jogo?

 

Porque eu acredito que sim, são cabíveis críticas a Mouse sim. Tanto que eu deixei escrito aqui o que de fato me incomodou em certo ponto. Agora ficar incomodado com esse tipo de trocadilho?

 

E sinceramente? Acho que cada veículo tem que ter liberdade para poder balizar como acha melhor os jogos que analisa. Mas existem aspectos que eu acho tão sem sentido, que eu poderia fazer uma longa análise dessa análise do IGN e porque eu acho que ela é terrível, em aspectos técnicos do jornalismo especializado em games, e só prova que é preciso uma outra ótica para se pensar games não apenas como um produto de consumo, mas também o seu impacto cultural enquanto uma mídia interativa que se apossa de outras obras culturais para criar uma identidade. 

 

… E o saldo é?!

Apesar de ter gostado muito da minha experiência com Mouse: P.I. for Hire enquanto um jogo de tiro das antigas – literalmente -, eu sinto que ele acaba tropeçando na própria cauda da ambição, querendo contar uma história elaborada, porém longa demais e que me perdeu com o passar das horas enquanto estive com esse game.

Gosto de como ele é respeitoso na sua escolha de arte. Gosto de como ele explora bem essa estética das animações dos anos 1930 e gosto de como ele emula bem uma trilha sonora magistral com esses aspectos de cinema noir. No entanto, eu penso que ele seria um jogo que se beneficiaria muito se fosse uma experiência mais contida e mais enxugada, deixando essa ambição para o futuro. 

 

Porém, no borbulhar do fondue, Mouse: P.I. for Hire é um jogo que vai agradar fãs de arte, seja ela pelas animações que você assistiu na infância, seja pela música, seja pelo apelo que ele tem pelos filmes de antigamente. Mouse é uma carta de amor da Fumi Games ao passado e agora nos resta saber o que o futuro nos aguarda. 

Esta cópia de Mouse: P.I. for Hire foi gentilmente cedida pela equipe da Fumi Games através do sistema Keymailer.

Vinícius Vidal Rosa

Ex-técnico em informática, jornalista formado e apaixonado por games e tecnologia. Faz do seu tempo livre, uma maneira de levar informação e falar sobre o que gosta.

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