Imagine um futuro em que as pessoas estão viciadas em dopamina, e acompanham streams de alguém invadindo um prédio para salvar uma donzela que foi raptada por um bilionário cibernético que quer realizar um ritual religioso, enquanto você destroça robôs das mais variadas formas.
Tudo isso, com apenas uma condição: você tem 10 segundos de vida para alcançar esse objetivo e ganha tempo conforme avança e elimina inimigos. Parece uma premissa maluca – e realmente é -, e é aqui que Mullet Madjack brilha em seu gameplay ousado, curioso e frenético.
O game foi lançado originalmente em 2024 e recebeu a atenção de uma boa parte da mídia. Então você deve estar achando estranho estar falando dele agora em 2026. Porém, ele chega neste dia 30 de abril ao Nintendo Switch e Switch 2.
Será que a versão para o portátil ainda consegue brilhar mais do que um painel neon saturado?! É o que vamos descobrir!
No momento em que eu escrevo essa análise, algumas coisas aconteceram envolvendo a atual edição do Big Brother Brasil 2026: a morte de Oscar Schmidt, irmão do apresentador do programa, Tadeu Schmidt, e a morte do pai da participante e vencedora da edição, Ana Paula Renault.
E você deve estar se perguntando: mas porque eu estou falando de BBB e não de Mullet Madjack?! E eu acho que esse contexto casa muito bem com tudo o que permeia o game: afinal, que entretenimento é esse, em que as marcas estão acima da vida – ou do luto – das pessoas? Acho que esse desenvolvimento vai aparecer ao longo do tempo aqui nesse texto.
Mas voltando a Mullet Madjack…
O que dá a soma de uma estética de anime dos anos 80 e 90, como Akira e Ghost in the Shell, músicas que usam e abusam de sintetizadores e trazem um clima à lá Blade Runner, cores saturadas e um futuro distópico em que robôs bilionários – chamados aqui de Robilionários – decidem sequestrar uma jovem donzela e levá-la até o ponto mais alto de um prédio para realizar um ritual místico para descobrir se há vida após a morte? Você parte então com a missão de salvar a donzela em perigo… Em troca de novos tênis? Pera… Tá certo isso, produção?!
Parece um monte de coisas jogadas para cima e que nada se encaixa, mas a equipe do estúdio brasileiro Hammer95 soube capturar todos esses elementos e unir em um jogo bem único. Nosso protagonista, Jack Banhammer é um “moderador” da empresa PEACE Corp.
Essa função de moderador é um tanto inusitada: você tem um aparelho ligado ao seu sistema cardíaco e, para salvar a garota em apuros, tem 10 segundos de vida para atravessar os cenários, e o tempo é contabilizado à partir dos seus abates contra os inimigos que farão de tudo para impedir o seu progresso.
Enquanto tudo isso é transmitido em uma plataforma de streaming em que rolam algumas vendas de produtos pela empresa responsável pelo “entretenimento”, já que boa parte das pessoas estão viciadas em dopamina, neste futuro de 2095.
A jogabilidade pode ser resumida como o tradicional Boomer Shooter: atire loucamente em alta velocidade e elimine tudo o que se mover em seu caminho, coletando alguns upgrades e recursos que ajudarão no seu progresso, como nos clássicos Doom e Quake.
Jack conta com um arsenal bastante variado e aqui entra um elemento interessante para além do tempo: o fator Roguelike. Isso porque ao terminar um andar, uma roleta de opções irá surgir na tela e você poderá coletar alguns upgrades que te ajudarão por toda a sequência de andares até a próxima sessão. Nela você poderá coletar armas melhores, recursos passivos, tiros mais potentes e que atravessaram os inimigos e também recursos que poderão te dar mais tempo de vida.
Sobre o fator tempo, o jogo possui uma vasta opção de dificuldades para ajustar sua experiência, que vai desde não ter tempo para finalizar os cenários, com foco maior em quem quer apenas curtir a experiência. Há dificuldades intermediárias que te darão um pouco mais de tempo para que você pegue o jeito da jogabilidade e da proposta do jogo, e claro, há também opções para quem quer um desafio bem mais alto, tendo até mesmo um modo de morte permanente. Essa, recomendada para quem já tem um pouco mais de experiência com esse tipo de jogo e já se sente confiante.
Para minha surpresa, o jogo está totalmente localizado em português e trouxe nomes de peso para dar vida aos personagens Jack – dublado por Luiz Feier Motta, o dublador clássico de Sylvester Stallone e que casa muito bem com a proposta “brucutu” do jogo – e também Gilberto Baroli – grande nome da dublagem que é conhecido pelo seu trabalho em Cavaleiros do Zodíaco como Saga de Gêmeos -, que empresta sua voz ao grande vilão do game.
Os gráficos emulam muito bem a estética de anime dos anos 80 e 90, sobretudo a questão da falta de uma proporção dos personagens (e aqui eu preciso fazer um adendo de que minha esposa viu o design das personagens femininas que surgem ao longo do jogo em propagandas e ela ficou indignada com o visual infantilizado e sexualizado de TODAS elas. Mas até explicar que isso – por mais ERRADO QUE SEJA – era a estética comum da época, ela já tinha contatado o Felca via DM do Instagram), e fluem muito bem mesmo nesta nova versão de Switch. Porém, há problemas e é sobre isso que eu quero falar no próximo tópico.
Até esse ponto, já ficou claro que eu gostei da minha experiência com Mullet Madjack. Sem dúvidas, ele foi um ótimo jogo que infelizmente passou pelo meu radar na época oficial do seu lançamento, mas que tive o prazer de testar bem antecipadamente agora na versão de Switch. Porém, eu tenho algumas ressalvas sobre essa versão e alguns problemas que ocorreram durante os meus testes com ela.
A primeira coisa são relativas aos controles. Eles não são ruins em questão de resposta, mas visto o design dos controles do Switch, eu senti um pouco de desconforto ao jogar, principalmente porque o tempo todo uma voz soava na minha cabeça dizendo: “esse jogo foi pensado para ser jogado em um computador”. E eu não discordo.
O analógico direito – que assume a função do mouse e controla a sua mira – acaba sendo uma opção quase que inviável aqui, visto que o jogo flui de maneira tão frenética que ele se torna pouco responsivo na maior parte da ação, e compensa mais você ficar circulando o ambiente com o personagem e reposicionar a mira no ponto que quer deixá-la, tornando a gameplay mais eficiente.
Eu creio que a versão de Switch 2, dado o fato de que possui essa funcionalidade de mouse com os Joy-Cons novos, deixe isso mais intuitivo.
Apesar da maioria da ação ocorrer com os botões e gatilhos do console, como por exemplo as finalizações com armas brancas, ao pressionar os botões ZL e ZR juntos, e utilizar o ZR para atirar e o ZL para chutar inimigos, há algumas partes em que é necessário o uso do pulo do personagem, para saltar plataformas e fugir de lasers e outras armadilhas. Porém, a disposição do botão de pulo com o botão B do Switch intuitivamente faz você largar o analógico da mira.
De modo geral, o game flui bem, mas é nitidamente um jogo pensado para ser jogado como um game de PC. E eu ressalto aqui que essas impressões são um resumo da minha experiência. Com certeza vai ter gente que vai jogar a versão de Switch de Mullet Madjack e vai discordar de tudo isso que eu disse. No entanto, eu sinto que a versão de Switch não possui os melhores controles.
Talvez aqui seja o ponto mais crítico da minha análise na questão técnica: bugs e problemas de performance. Sim, eu tive alguns problemas BEM COMPLICADOS com esse jogo nesse aspecto.
Ele é um jogo não muito longo, pois dependendo da sua habilidade e intimidade com o jogo, você fecha ele tranquilamente em menos de 3 horas. Porém, em três ocasiões eu tive problemas em que o jogo detectou algum problema de execução no console e fechou o jogo após o encerramento de um capítulo.
O problema é que esse jogo só salva o fechamento de um capítulo após uma pequena cutscene de interação entre Jack e seu Tamagotchi. E todas as vezes que isso aconteceu foram antes dessa pequena interação, o que resultou em eu ter que refazer TODO O CAPÍTULO DE NOVO.
Frustrante? Sim! Mas ainda bem que todas as fases são relativamente curtas na dificuldade normal do game. Fato é que isso pode frustrar o jogador que pagou para jogar o game de maneira portátil.
Eu fiz o mesmo teste na versão “dockada” do meu Switch e o jogo até rodou melhor, mas o mesmo problema ocorreu ao final dos créditos finais do jogo.
O game não deixa de lado algumas mensagens que conversam com a nossa realidade atual controladas por IAs, Big Techs e Bilionários malditos. – Imagem: Reprodução.
Teve alguns pequenos probleminhas ao tentar mutar a “host” da live, que sempre que você passa por uma fase, ela aparece falando uma frase. Porém, quando a coisa entra em loop, acaba cansando um pouquinho e há uma opção de mutá-la. Só que por alguma razão, mesmo aparecendo a tarja de “MUTE” na imagem dela, as falas continuaram saindo com áudio.
Fora isso, bugs de performance ou problemas de quedas de quadros não se fizeram presentes durante a minha gameplay, o que mostra que o jogo está sim otimizado para o aparelho. Eu acredito que até o lançamento do jogo, tudo já esteja resolvido.
Mullet Madjack é um ótimo jogo de tiro em primeira pessoa com elementos de Roguelike. Infelizmente eu não consegui jogá-lo na sua época de lançamento e sinto que estou chegando tarde nessa festa. Porém, foi muito legal poder testá-lo de maneira bem antecipadamente nessa versão de portátil, apesar dos problemas técnicos.
O que eu sinto é que apesar de brincar com essa coisa distópica retrofuturista que nos soa muito familiar em termos estéticos, Mullet Madjack brinca com uma realidade que nos é muito palpável: a economia da atenção, a intervenção de bilionários e Big Techs em nosso comportamento online, a nossa falta apatia diante da violência transmitida pela internet e também, a presença – mesmo que sutil aqui – de um viés religioso que não se importa muito com a vida do outro.
Ao terminar eu fiquei me questionando sobre todos esses aspectos que nos circundam nesses tempos malucos do capitalismo tardio e como isso pode ser representado de maneira tão atual em um jogo cujo objetivo é não morrer em 10 segundos enquanto distribuo chumbo em robôs bilionários.
Realmente, a realidade e a maluquice aqui andam de mãos dadas. E tudo isso rodeado por outdoors e propagandas dos mais variados patrocinadores.
Esta cópia de Mullet Madjack para Nintendo Switch foi gentilmente enviada pela equipe responsável para a produção desta análise.
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