A Investigação Póstuma – Análise (PC)

Eu não sei você, caro leitor, mas quando estava na flor da juventude alí pelos meus dezesseis anos, eu tive contato com “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Tudo por causa das aulas de literatura na escola. Aulas essas que, até certo momento, me geraram uma revolta por quererem me forçar a ler coisas das quais eu não tinha o menor interesse.

E tudo bem! Acho que dezesseis anos é um momento da gente ser mais cabeça-dura do que após isso. Mas “Memórias Póstumas” me pegou desprevenido, pois eu nunca tinha lido um livro que conta uma história, narra acontecimentos e ainda assim, dialoga com você que está do outro lado das páginas. É claro que eu nem ousaria tentar replicar tal forma de diálogo metanarrativo como Machado de Assis outrora fez, mas me entenda, caro leitor: eu não tenho tantos atributos e dotes de escrita quanto ele. E nem tenho pretensão de tê-los, pois isso é para poucos.

 

Agora, em 2026 eu revisito a obra de Machado de Assis, mas não influenciado por criadores de conteúdo gringos que se deleitaram com uma parte importante da nossa literatura, mas presenteado pela Mother Gaia Studio que nos presenteia com “A Investigação Póstuma”, jogo que toma suas liberdades narrativas para explorar a obra de Machado de Assis de uma maneira bem diferente: através dos games!

Ao verme que, certamente irá corroer a fria carne do meu cadáver algum dia, eu dedico esta análise. E claro, à você também, caro leitor.

 

A investigação

 

Existe algo que precisa ser estabelecido aqui antes de darmos início a nossa análise: o jogo é uma adaptação da obra de Machado de Assis, e não algo que vai transportar a obra literária para o formato videogame. Então, há sim mudanças e releituras para melhor adaptar a obra a este novo formato. 

 

Uma outra coisa que vale salientar aqui é que Machado de Assis, por vezes, sempre foi considerado um autor de difícil compreensão quando se pega o texto original, visto que ele usa uma linguagem bastante rebuscada em sua escrita. Não é o caso aqui, com exceção de um personagem, mas isso será abordado ao longo deste texto. 

 

  1. Rio de Janeiro. Era uma manhã ensolarada na cidade maravilhosa. Somos acordados pelo relógio-cuco no alto do escritório escuro pelas persianas semicerradas. Assumimos então o controle de um Detetive – que aqui no game, não possui nome -, que reclama que seu emprego está no fio da navalha pela falta de novos casos. 

Brás Cubas envia uma carta até nosso escritório… Mas como, se ele está morto? – Imagem: Reprodução.

Mas espere! Uma carta chegou logo pela manhã e está endereçada ao Detetive, que prontamente procura pelo seu remetente. Um nome então aparece: Brás Cubas. 

 

O que uma das figuras mais proeminentes e controversas do Rio de Janeiro quer com um mero detetive de esquina? A mensagem diz que se o detetive receber essa carta, é porque Brás Cubas está morto. E ele quer algo de nós: que seja descoberto quem é o assassino.

 

À partir de então, partimos em uma jornada para descobrir quem pode ter cometido tal crime que abalou as estruturas da cidade do Rio de Janeiro, e colocar o verdadeiro assassino atrás das grades.

 

Mas, êpa! Peraí… Por que temos até a meia-noite para resolver isso? Eis que ao descobrir alguns pontos, conversando com pessoas próximas de Brás Cubas, o sono bate e… O mesmo dia se inicia de novo?


A Investigação Póstuma é um jogo não apenas sobre coletar pistas, conversar com pessoas e ir descobrindo as suas relações com Brás Cubas, mas também um jogo sobre loop temporal. Tudo ocorre no mesmo ciclo de dia após a morte misteriosa do figurão e isso talvez tenha sido uma grande sacada dos desenvolvedores, que conseguiram através do mesmo ciclo de loop, fazer com que a história avance num ritmo que vai instigar você a desvendar esse mistério.

 

Há diversos personagens suspeitos que darão suas versões, não apenas da sua relação com Brás, mas também porque desgostavam dele e isso abre um leque de possibilidades durante a sua investigação.

Conforme a investigação avança, novos elementos vão sendo adicionados ao seu quadro de suspeitos – Imagem: Reprodução.

Ao final de cada ciclo, nos encontramos com Brás Cubas numa espécie de limbo, em que teremos algumas conversas com ele, podendo pedir algumas dicas de onde a investigação deve seguir, o que descobrimos durante nossas conversas com as mais variadas pessoas, e como isso molda as informações da sua investigação.

 

É interessante notar que visualmente o game segue um visual cartunesco, mas muito bonito, super bem detalhado e que traz essa brasilidade em sua ambientação. Aqui, temos cinco pontos que podem ser visitados, que vão desde o centro da cidade do Rio de Janeiro, passando por um bairro chique onde vivem algumas das pessoas da elite carioca, e temos também a zona portuária e industrial, e claro, a clínica psiquiátrica.

 

Cada um desses lugares traz um pouco da magnitude da obra de Machado de Assis e seus personagens. Então, não é incomum encontrar com Capitu e Bentinho de “Dom Casmurro”, Dr. Simão Bacamarte de “O Alienista”, e claro, Quincas Borba e sua doutrina, o Humanitismo. Tudo aqui está inteiramente conectado e as relações de todos os personagens entrem si e como isso deságua de alguma forma no crime central investigado no jogo é um trabalho primoroso. 

 

O game também traz diversas facetas não apenas da literatura, mas do próprio contexto social da época, como a Revolução de 1930, que culminou em uma transformação nas leis trabalhistas no país, com a criação da CLT – o que conversa muito com a nossa atual realidade, em que se busca uma redução na jornada de trabalho com o fim da escala 6×1 vigente no país -, além das ambições políticas de poderosas figuras da alta sociedade carioca, como Lobo Nevez e sua busca incansável por eclair de chocolate e votos. 

 

Aqui podemos interagir com personagens, descobrir informações ao longo de nossas conversas e algumas informações cruciais para a investigação permanecem conosco mesmo com a passagem de tempo. Já itens coletáveis e ações realizadas durante um loop são resetadas ao final deste. 

 

Quadro de suspeitos

 

A Investigação Póstuma é um jogo que se ancora numa estrutura que lembra muito os filmes – e até jogos Noir – clima em preto e branco, trilha sonora do tipo jazz e muita, mas muita conversa. Aqui, todos esses elementos estão presentes.

 

Apesar do jogo não ter cores, tudo parece vivo. Mesmo as paisagens que possuem mais natureza não soam estranho com um visual completamente preto e branco. A trilha sonora é também um fator interessante, pois ao mesmo tempo em que ela emula o jazz presente em produções Noir, ela tem elementos de música brasileira, como o samba, o chorinho e também a bossa nova. Um ponto interessante é que cada personagem possui uma variação sonora bastante única enquanto os diálogos são dispostos.

 

Aliás, isso também é um ponto a se falar: o jogo é sustentado pelo seu texto. E mesmo se tratando de um jogo amparado pelo livro de Machado de Assis, ele não possui um texto difícil de ser entendido ou muito rebuscado… Até você conversar com Brás Cubas. Ele parece ser o único personagem que emula um pouco desse linguajar mais refinado presente nas obras de Machado de Assis. 

Todos tem algo a dizer sobre Brás Cubas… Mas será que estão todos falando a verdade? – Imagem: Reprodução.

Ao todo nós temos 14 suspeitos de terem dado fim a vida de Brás Cubas, sendo eles o farmacêutico Crispim, Virgília e Lobo Nevez, o Padre Cabral, Capitu, Bentinho, Sofia e Chris Straw, Sabine Cubas, Rubião e outros personagens que irão surgindo na trama. Cada um destes teria um bom motivo para dar fim a Brás, seja por suas aventuras amorosas, seja por suas manobras políticas e uso de sua lábia para enganar até mesmo o mais são dos malucos. 

 

O jogo também lembra um pouco a estrutura do jogo “Detetive”, em que você vai fazendo essa coleta de pistas que levam a outros personagens e conforme você os interroga, novos elementos vão surgindo até o seu derradeiro final. 

 

O que eu sinto é que o que pode afastar um pouco as pessoas desse jogo é que ele é sumariamente um jogo de leitura. São diálogos e mais diálogos, informações e mais informações, notas e mais notas sobre o ocorrido e tudo se sustenta em seu texto. Então gostar de ler é sim um pré-requisito para que você aproveite melhor essa experiência. 

 

Sobre problemas e performance

 

O jogo não é exigente e roda muito bem até mesmo nas configurações mais modestas. Se você, assim como eu, não possui uma máquina de ponta, não se preocupe: A Investigação Póstuma vai rodar muito bem numa configuração mais modesta do que um I5 9400F, 32GB de RAM DDR4 e uma RTX 2070 de 8GB.

Infelizmente, o jogo está disponível apenas para PC via Steam e não há previsão de chegar para outras plataformas. Também não sei dizer como ele está rodando no Steam Deck, por que eu não tenho um Steam Deck (mas caso você tenha o game e um Steam Deck, me manda uma mensagem falando como ele está rodando que eu insiro aqui na análise).

Sobre problemas ou bugs eu realmente não tive nenhum que comprometesse a minha jogatina. No entanto, eu só tenho uma crítica que é sobre o ritmo do jogo no seu terço final. 

O game conta com um visual cartunesco e bastante simpático. Sua placa de vídeo agradece! – Imagem: Reprodução.

Eu terminei a Investigação Póstuma com cerca de 15h no contador da Steam (porém em alguns momentos o jogo ficou em pausa para outras atividades, mas julgo que terminei ele em cerca de 12h de gameplay), e eu sinto que a parte final dele – não O FINAL, mas o trecho que culmina no final – seja o mais desinteressante pois o próprio loop temporal acaba criando uma condição bastante enfadonha.

 

Os personagens possuem suas rotinas e há sim algumas possibilidades de alterá-las conforme você realiza algumas ações, e é bem interessante de observar os seus comportamentos e seus horários, onde encontrá-los e etc. Mas no trecho final, isso acaba se tornando uma coisa um tanto maçante em dados momentos. 

 

… E o saldo é?

 

A Investigação Póstuma foi uma experiência muito satisfatória. É o reencontro com uma obra tão potente e única como “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, mas agora em um outro formato, em uma outra mídia. Eu confesso que quando iniciei minha investigação, eu esperava algo bom. Mas ao terminar esse game, eu fiquei pensando em como eu quero mais desse universo e quiçá de outras obras de Machado de Assis assim, transportadas para uma outra mídia, para que mais gerações possam conhecer e desfrutar um pouco desse rico universo da literatura brasileira. 

 

Eu acho que esse jogo pode ser uma ótima oportunidade de fazer com que audiências mais jovens, que não tem tanta intimidade com a leitura, possam ao menos dar uma chance de experimentar e experienciar Machado de Assis em sua forma – talvez – mais acessível. Claro que o jogo nunca irá substituir a obra literária, mas é muito bom poder ter uma alternativa para que a memória de Machado de Assis e sua obra permaneçam vivas nas mentes e corações de uma nova geração. 

 

Sem dúvidas, A Investigação Póstuma é uma das grandes jóias que 2026 nos trouxe, quando pensamos em jogos brasileiros. 

Esta cópia de A Investigação Póstuma foi gentilmente enviada pela equipe de relações públicas para a produção desta análise.