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DEAD SPACE REMAKE – ANÁLISE (PS5)

Em 2011, eu tinha 21 anos e ainda trabalhava com manutenção de computadores. Nesse tempo, eu descobri muitos jogos graças ao meu trabalho, numa pequena loja que ficava no bairro onde eu morava com meus pais, e também as facilidades de montar um computador que pudesse rodar a maioria destes. Dentre essas descobertas, uma me saltou aos olhos: DEAD SPACE. Um jogo de terror espacial que refinava muito dos conceitos que Resident Evil 4 trouxe e que tornaram-se uma tendência no mercado dali em diante.

Dead Space foi um jogo que clicou muito rápido comigo pelo seu gameplay interessante, a tensão criada pela então Visceral Games, colocando o jogador no vazio do espaço e de uma nave repleta de criaturas horripilantes vindas diretamente de um pesadelo, e uma trama que descamba para uma realidade recente do nosso mundo real: aonde a fé termina e o fanatismo cego começa?!

Depois de altos e baixos, Dead Space permaneceu em hiato. As sequências não tiveram o mesmo sucesso do jogo original, e acabaram levando esse universo para rumos incertos. Em 2023, a Eletronic Arts trouxe o game original de volta aos holofotes, expandindo a história com mais conteúdo e tornando aquilo que era grotesco ainda mais assustador, com novos gráficos, mas mantendo sua essência: a de causar tensão em medo, em um ambiente claustrofóbico.

Mas será que Dead Space ainda tem espaço nesse vasto universo do survival horror?! Será que este é um remake realmente necessário?! Esses e alguns pontos serão discutidos nesta análise.

HÁ NÃO MUITO TEMPO, EM UMA GALÁXIA DISTANTE…

Dead Space começa mostrando nosso personagem central, Isaac Clarke  – e aqui vale destaque que o nome do protagonista deriva de dois grandes nomes da ficção científica, Isaac Asimov (Eu, Robô e Fundação), e Arthur C. Clarke, que co-escreveu “2001: Uma Odisséia no Espaço” -, um engenheiro da tripulação da nave Kellion, recebendo uma mensagem de sua ex-companheira, Nicole Brennan, pedindo ajuda. Nicole é uma cientista que está à bordo da USG Ishimura, uma nave de mineração que estava realizando um trabalho no planeta AEGIS VII e acabou perdendo o contato. Após um acidente no pouso, Isaac e outros membros da Kellion vão investigar o que aconteceu com a Ishimura. Enquanto eles investigam o local, que está repleto de marcas de sangue e até restos humanos, eles são atacados por uma criatura usando os trajes da tripulação da USG Ishimura, e é ai que o jogo tem início.

A primeira grade diferença de Dead Space remake para o game original é a participação ativa de Isaac nos diálogos. No game original, o personagem fazia o papel de personagem silencioso, deixando para que o jogador assumisse os diálogos de forma individual. O personagem só ganhou de fato voz ativa à partir do segundo game. Aqui, o remake conseguiu dar uma personalidade ao personagem, deixando-o mais vivo.

Pelo fato do personagem não ser um perito em uso de armas, a sensação de atirar aqui consegue criar uma imersão, já que o jogo não possui uma mira automática, deixando que o jogador explore e melhore sua habilidade em derrotar os inimigos com o tempo. Para quem for jogá-lo no Playstation 5, ele possui compatibilidade com os gatilhos adaptativos do DualSense, que funcionam muito bem e dão um toque à mais na imersão do jogo (confesso que eu gostei muito da experiência com esse gimmick, mas sei que alguns jogadores e jogadoras não gostam desse tipo de recurso. Mas vale a pena experimentar).

Achei até o Olavo de Carvalho no game!

Uma das coisas que me chamaram a atenção aqui, diferente de quando joguei ele na versão original, é que Dead Space possui alguns elementos de Metroid (outro jogo com temática de exploração espacial), como o backtracking (revisitar lugares aqui é uma constante), a evolução do personagem e do seu arsenal de recursos e também, aquele clima de mistério e, por que não dizer, opressão do lugar.  Se tem uma coisa que esse remake potencializa é a sensação de insegurança do jogador, já que todo lugar é um potencial lugar para ser atacado por uma das criaturas – e isso inclui algumas salas com recursos, as famigeradas salas seguras. Se você estiver em um local, fique atento aos dutos de ventilação, pois você pode ser surpreendido a qualquer momento.  Muito disso foi aprimorado nessa nova versão, que adicionou novas missões ao jogo, expandindo um pouco do enredo e tornando o jogo menos linear do que o original (que também tinha algumas revisitas em locais, mas em uma escala bem menor).

Sobre o gameplay, Isaac pode andar, correr, atirar, planar (em locais onde há gravidade zero), usar itens, utilizar habilidades como telecinese (mover objetos “com a mente”) e estasis, uma habilidade de deixar objetos e inimigos mais lentos, além de socar e esmagar. Sobre essas últimas, é importante aprender como cada uma funciona, pois munição no jogo é algo bastante limitado, e saber como se defender jogando objetos e partes dos inimigos, além de socar e esmagar, podem salvar sua vida. Então, aprenda a usá-las com sabedoria.

UM MUNDO ABERTO EM UMA NAVE FECHADA

Como abordado anteriormente, Dead Space Remake não apenas expande a história, mas deixa o jogador mais livre para explorar a USG Ishimura. Apesar de Isaac contar com um GPS que indica para qual lugar o jogador deve ir para avançar na história, a exploração se tornou mais livre e menos linear do que o original. Muito disso por que os demais parceiros de Isaac, Daniels e Hammond, indicam para onde o jogador deve ir para que esse avanço na trama principal aconteça. Mas e aquela porta trancada na sala? E aqueles baús e armários que podem conter itens essenciais para a evolução do personagem? Cabe a você decidir se quer uma experiência mais linear, como era o jogo original, ou se o seu senso de exploração falará mais alto. Além disso, o jogo também conta com missões secundárias que ajudam a elucidar o que aconteceu com a USG Ishimura e sua tripulação, além de contar também com documentos de áudio e texto, que expandem ainda mais essa experiência de investigação e revelam muitos detalhes que antes apenas ficavam subentendidos no decorrer da trama.

É realmente incrível como uma “simples” nave pode ser um lugar tão rico em detalhes e contar sua história para além dos logs de texto e de áudio, mas através do próprio cenário. Não é incomum você andar pelos variados locais da Ishimura e encontrar frases escritas nas paredes – algumas até com sangue, como a clássica “Cut Their Limbs Off” (Corte seus membros fora, em tradução livre), indicando a forma como o jogador pode vencer ou atrasar seus inimigos.

As paredes da Ishumura falam pela sua tripulação com todo o tipo de mensagem. Inclusive, eu dou destaque para uma destas que mostra a consciência de classe de uma parte dos mineradores que mandaram um “foda-se essa merda de nave capitalista”.

Mas talvez um dos pontos altos do game, no seu quesito história é como vemos a deterioração mental de Isaac ao conhecer mais as entranhas dessa nave. A cada novo capítulo da história, o personagem mergulha em um mar de insanidade e dúvidas sobre o que é real e o que é apenas sua mente sendo manipulada pelo que a Ishimura encontrou enquanto minerava o planeta. A partir daqui, o jogo traz os aspectos religiosos desse futuro espacial, apresentando a Unitologia, uma religião que prega a “transformação e o renascimento” da raça humana.

Porém, tudo não passava de uma fachada para que experiências pudessem ser conduzidas, brincando com a fé dos fieis e utilizando a religião como uma justificativa para atos atrozes. Ai eu pergunto: que retrato atual da sociedade após uma pandemia, não é? Quantos líderes religiosos não utilizaram dessa mesma “fé” para justificar certos “atos” durante esse período nefasto na nossa história recente. Aqui, pelo menos para mim, Dead Space se provou bastante atual, mesmo tendo esse plot lá em 2011. Porém, mal sabíamos o que o futuro nos reservava, com a ascensão de uma religiosidade latente, e por vezes até cega, que justifica seus problemas e seus atos “em nome de Deus”. Será que estes, já não se tornaram monstros? Bem… Voltemos ao texto.

PROBLEMAS E BUGS? TEMOS!

Nem só de coisas boas está cheio esse remake de Dead Space. Sim, há problemas. Sim, tem bugs também. Alguns atrapalharam no meu progresso durante as 15h de jogo que eu tive? Não. Nenhum deles comprometeu o meu progresso, e confesso que eles só estão aqui nessa análise por que eu julgo importante falar de todos os aspectos do jogo, tanto os bons quanto os ruins.  A maioria os bugs que eu encontrei durante minha jogatina foram objetos flickando (aquelas piscadas intermitentes) no cenário, objetos voando (sem estar na gravidade zero, vale ressaltar) e alguns corpos de inimigos, ao serem puxados usando a telecinese, viravam verdadeiros chicletes, se esticando todo. Isso é até engraçado quando acontece, mas eu sempre penso que, em se tratando de jogos de terror, isso quebra a imersão do medo. Isso é um problema crítico? Não, eu acho que não. Mas tirar o jogador desse sentimento de risco iminente e tensão, quando a proposta é justamente mantê-lo alerta pode frustrar um pouquinho as expectativas.

Outro problema que presenciei foram as expressões faciais dos personagens é algo TERRÍVEL. Durante os diálogos, os personagens não possuem qualquer expressão que não seja aquela com olhos estalados, como se tudo os surpreendessem, junto com uma poker face que tem a mesma vibe de um papel toalha encharcado na pia. Tudo bem que a gente sabe que fazer isso seria uma demanda muito grande, e que provavelmente muitas horas de crunch (um abraço ao capitalismo) seriam demandadas. Mas é como se tudo que estivesse acontecendo não importasse. Vale dizer que o mesmo não se aplica nas transmissões quando Hammond e Daniels estão em contato com Isaac. Mas quando eles estão frente à frente, é realmente uma coisa que você fica pensando “é, tá tudo suave na nave”.

UNS CAPETAS EM FORMA DE GURIS

Os inimigos também passaram por algumas repaginações e confesso que estão ainda mais aterrorizantes que os necromorfos do game original (sim, claro. Isso é um remake. TEM QUE ESTAR MELHOR, Vinícius… Seu burro). As lacerações e as investidas dos inimigos deixam qualquer pessoa com agonia de ver braços, pernas e cabeças rolando soltas pelo cenário. Além disso, a movimentação – sobretudo se você estiver jogando nas opções de performance – tornam tudo mais fluído e “natural”. Há uma variedade de inimigos que vão desde tripulantes morfizados (sei lá se essa palavra existe, mas vou manter ela aqui mesmo assim) em criaturas com lâminas saindo pelas mãos, inimigos rastejantes que possuem uma investida rápida, outros ao explodirem liberam uma quantidade de pequenos filhotes presos ao corpo de Isaac, outros possuem uma bolsa escrotal (???) que ao ser atingida, explode, causando um dano em área, e claro… Bebês mutantes com tentáculos nas costas que se movimentam de maneira tão imprecisa quanto aquela barata que você encontra na cozinha, de madrugada e não sabe qual será a ação dela.

Há alguns outros inimigos que aparecem apenas em locais muito específicos, como uma massa de carne presa ao lado de portas que arremessa pequenos filhotes e está pronta para DECEPAR SUA CABEÇA ao se aproximar. Também há alguns poucos chefes no jogo, como o Leviatã que… É uma parada meio lovecraftiana, difícil de explicar, e o Caçador, um inimigo que tem a habilidade de regenerar seus membros decepados (seja criativo na hora de eliminá-lo).

Apesar do visual bizarro, o grande trunfo desses inimigos é te pegar desprevenido, enquanto você explora o ambiente e coleta recursos para melhorar seu arsenal, sua armadura e sua árvore de skills de armas. Claro que, quando eles atacam em bando, a coisa pode complicar um pouco, sobretudo em dificuldades mais altas. Mas aprendendo a como lidar com cada um, e sabendo quais estratégias usar (lembre-se da telecinese e da habilidade de deixá-los lentos), é possível eliminá-los e avançar no game. Mas tome cuidado: morrer em Dead Space pode ser traumático.

E O SALDO?

Em suma, Dead Space Remake tem uma dose de adição interessante e que torna o que já era bom ainda melhor. O game original já era muito bom e cumpria muito bem o seu papel em causar um clima de tensão e medo no jogador. Aqui, além dos visuais conseguirem potencializar esses sentimentos, ainda foi acrescido o fator exploração e descoberta sobre a USG Ishimura e seus mistérios. Esse é um remake necessário para revisitar um bom jogo e para que uma nova audiência consiga experimentá-lo em sua versão definitiva.

Ele possui algumas ressalvas, mas que em nada farão com que ele seja uma experiência inferior, provando que o Universo de Dead Space ainda pode ser explorado (com o perdão do trocadilho). O que de fato é um problema é o alto preço do jogo, que flutua entre seus R$300 a R$350, dependendo da plataforma que você optar. Mas em uma boa promoção, é um jogo obrigatório para aqueles que não tiveram a oportunidade de jogar o título original, ou querem constatar que, por mais vasto que seja o universo, tem sempre algo à espreita, como um monstro carniceiro sedento de sangue… Ou um vendedor da Hinode (que é quase a mesma coisa).

Vinícius Vidal Rosa

Ex-técnico em informática, jornalista formado e apaixonado por games e tecnologia. Faz do seu tempo livre, uma maneira de levar informação e falar sobre o que gosta.

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Vinícius Vidal Rosa

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