Video Games

Valfaris (Playstation 4) – Análise

O gênero que chamamos hoje de run n’ gun já representou uma boa fatia do que são os jogos de videogame, principalmente da geração 16 bits pra trás, quando as escolhas de design, naquela altura bastante limitadas pela tecnologia, ditavam o tom dos jogos de ação, que se dividiam basicamente entre “briga de rua” (hoje beat’em ups) e “ação com tiro”.

Entre clássicos absolutos como as séries Contra e Metal Slug, o gênero prosperou dentro da linguagem e das limitações tecnológicas que cercavam os videogames da época, quando não haviam grandes discussões a respeito do potencial narrativo ou artístico destes – definitivamente, pros videogames a década de 90 foi um tempo mais simplório (e até por isso, problemático). Valfaris é um run n’ gun que se esbalda desse tempo passado em forma, referências e execução.

Monstros gigantes, lugares inóspitos, tiros e muito heavy metal criam toda a ambientação em Valfaris. – Foto: Divulgação.

Se por um lado não há compromisso com a modernidade que hoje permeia o design de jogos, tampouco dá pra dizer que ele apresenta condições que o depreciem quando pensamos nas características comuns aos jogos da década de 90, como a sexualização de personagens femininas na condição de interesse sexual (sejamos realistas, chamar de “interesse amoroso” é suavizar todo um discurso) ou donzela em perigo. Em Valfaris a história realmente não importa muito, mas a premissa é esclarecer questões do passado que envolvem uma trama política de dominação de planetas numa espécie de feudalismo espacial, enquanto paralelamente investiga o passado de seu pai, tipo como um traidor entre os seus.

Na forma, temos gráficos que mesclam 2D e 3D num resultado que remete imediatamente a Doom Troopers, um jogo obscuro do gênero e que fora lançado para SNES e Mega Drive em 1995. A característica mais imediata desse aspecto é perceber que os modelos com baixo número de polígonos parecem homenagear justamente o início da era de jogos em 3D, embora a jogabilidade seja em 2D.

Inspirado em clássicos do cinema como ‘Alien’, Valfaris transporta o jogador para uma viagem interplanetária regada a muito Heavy Metal. – Foto: Divulgação.

Também é dessa época que a direção artística pega do heavy metal a maior inspiração do jogo, o que implica insinuações que vão de H.R. Giger a uma infinidade de bandas que são homenageadas com nomes de armas, locais e personagens; aos incautos, o protagonista Therion não é um caso isolado. E nos domínios do heavy metal é que surge a melhor execução de Valfaris: sua trilha sonora.

Com a assinatura de Curt Victor Bryant (Celtic Frost), a trilha de Valfaris é a principal responsável pela imersão do jogador em uma vibe adolescente-retrô, alternando entre ritmos e nuances bem colocadas e oportunas pro que se desenrola na tela. É um trabalho tão bem executado, que se sustenta sozinho e é capaz de cativar até os não adeptos do gênero, mesmo que o fascínio se restrinja à experiência de jogo.

Com uma jornada linear e uma dificuldade bem dosada, Valfaris é a representação clássica da fantasia de poder composta por estímulos básicos de agressividade e sobrevivência, mas que de maneira inteligente escolhe não reproduzir alguns discursos problemáticos desse conjunto. Ainda que peque em relação a certas representatividades, na execução é um jogo para quem procura experiências mais diretas, onde não há reflexões tão profundas, o que aqui é compensado por um bom apuro artístico e mecânico.

Anderson, o Gamer Antifascista

Entusiasta da tríade composta por videogames, política e inclusão social, entende que estes assuntos não se descolam um do outro - e menos ainda da nossa realidade.

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Anderson, o Gamer Antifascista

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