Quando eu era adolescente, em algum momento eu fui impactado com a obra de Dante Alighieri “A Divina Comédia”. O primeiro livro – e talvez o mais icônico da obra toda – ‘Inferno’ me abriu os olhos para como, naquele momento histórico, Dante não apenas escreveu uma obra grandiosa, mas que trazia uma camada de crítica social a figuras da sua época, bem como fazendo quase que um resgate histórico, criando uma mitologia bastante única e que influenciou muitas obras posteriores.
Eu sei que nos games, talvez a mais proeminente adaptação de sua obra tenha sido “Dante’s Inferno”, que nasceu da parceria entre a Eletronic Arts e a Visceral Games (que Deus à tenha). Inspirado por jogos de sua época, esse game trazia um Dante menos erudito e mais “sangue nos olhos”, com uma representação do Inferno bastante interessante.
Já em 2026, a ONE-O-ONE Games, em parceria com a Entalto Publishing trazem “The Alighieri Circle: Dante’s Bloodlines”, um thriller inspirado na obra de Dante um tanto interessante e que promete ser uma nova interpretação da obra do poeta italiano.
Nós aqui do Salvando Nerd conferimos a demo do game e vou tentar trazer um pouco da experiência – ainda que curta – desse game bastante promissor para os fãs de jogos de terror e investigação.
Lembre-se: isso é apenas uma prévia, um gostinho do que está por vir. Então “abandone toda a esperança” de ter uma análise completa.
Uma história de família
O jogo inicia com uma pequena cutscene animada nos dando o contexto da história. Aqui, assumimos Gabriele Alighieri, um dos descendentes diretos de Dante e que nos explica que o Inferno descrito em sua obra não é apenas um punhado de alegorias e um lugar no imaginário, mas sim uma dimensão real.
A sua missão, enquanto descendente de Dante é manter essa dimensão selada. Por isso, a cada 33 anos, quando o tecido da nossa realidade fica mais fino, possibilitando a abertura de uma passagem para o Inferno descrito por seu antepassado, alguém dos Alighieri é sondado para fazer esse “tour infernal” e selar a passagem.
É aí então que somos colocados na casa dos Alighieri – uma mansão que mais parece um museu, repleto de quadros, esculturas e claro, livros. A primeira coisa que chama a atenção aqui é que apesar de ser um projeto de orçamento menor, nota-se uma riqueza de detalhes nos ambientes. Tudo simula muito bem um casarão antigo, e até mesmo o clima já é sentido pelo ambiente.
Durante sua gameplay, Gabriele poderá encontrar algumas páginas de textos que contam um pouco mais sobre o legado da família Alighieri, bem como alguns detalhes sobre visitas de seus antepassados até as terras infernais – as que deram certo, e algumas que não foram muito bem-sucedidas. – Mais tarde, eu falarei de alguns problemas relacionados a esse detalhe específico.
A movimentação é bem simples, assim como suas ações. Podemos andar pelo cenário, abaixar e interagir com objetos do cenário. Não há nenhum tipo de inventário de itens coletados e o máximo que podemos fazer é visualizar um mapa da planta da mansão.
Após uma série curta de eventos e pequenos momentos de busca de itens, Gabriele finalmente consegue abrir o portal que leva para o Inferno descrito por Dante. Aqui vale um destaque: o cenário utiliza principalmente uma paleta de cores branca e vermelha e é muito bonito e bem construído. Quem leu a Divina Comédia certamente fará um link entre os Cantos (como são conhecidos os trechos da obra) iniciais e o cenário em questão.
Ao adentrar, Gabriele é recepcionado por uma voz grave e misteriosa. Ele indaga quem – ou o quê – seria, e a voz apenas diz que será uma espécie de “guia” durante sua estadia ali. Ambos vão se entrosando e em um determinado ponto a voz diz que em breve, ela se revelará para Gabriele. E aqui a demo encerra.
Um pouco anticlimático? Talvez. Mas eu gostaria de falar algumas coisas antes de encerrar essa prévia.
Os demônios no meio do caminho
Tudo bem que o que eu vou analisar aqui talvez seja até injusto com a demo, afinal ela não reflete necessariamente o material final.
Uma das coisas que me chamou a atenção logo de cara é que a ambientação do jogo é muito interessante, e de alguma forma ele te instiga a bisbilhotar aquele ambiente. Só que por outro lado, eu fico com a impressão de que ou esse jogo vai ser basicamente um Walk Simulator com trechos de terror, ou ele pode crescer, trazendo um combate.
Não há qualquer inimigo nessa demonstração, e mesmo utilizando um ótimo cenário para induzir um pouquinho de insegurança ao jogador, tudo é muito seguro. O que eu quero dizer com isso é que toda a casa dos Alighieri parece um museu, com obras de arte que poderiam induzir o jogador a um ambiente de tensão e terror… E isso não acontece.
Outra coisa que eu achei que poderia ser mais intuitivo é o mapa. Ele apenas indica a área que você está mudando a cor da fonte de branco para verde. Não há nenhum indicador visual de que você está indo no caminho certo, e cabe ao jogador se atentar a planta da casa e a descrita no mapa para se guiar.
Talvez – e só talvez – alguns jogadores poderão se sentir perdidos com essa forma de navegação.
Mas acho que dentre todos os pequenos problemas, o maior seja a falta de uma tradução oficial para os textos e legendas. E claro, até a data de lançamento isso pode ser ajustado. Mas muito do que torna a demo interessante é encontrar esses relatos por cartas e a falta de um texto na nossa língua pode acabar afastando algumas pessoas de querer experimentar a demo.
Falando da demo em si, eu creio que The Alighieri Circle é um jogo promissor. Tem ideias interessantes e parece fazer uma leitura interessante da obra de Dante para um game. Porém, eu não sei se talvez uma demo com um pouco mais de tempo ou que encerrasse em um momento chave mais impactante não seria algo do qual o produto final se beneficiaria.
Apesar de todos esses pontos, é um game que vai estar no meu radar e estou bastante curioso para ver o que a ONE-O-ONE Games irá fazer com essa história e qual será o desfecho de tudo isso.
Sobre performance e bugs
Eu já disse em outras análises que tenho um PC bastante modesto para as configurações atuais. Um processador I5 9400F, 32GB de RAM DDR4 e uma placa de vídeo RTX 2070 de 8GB.
O jogo utiliza gráficos bem realistas para os cenários e objetos e surpreendentemente é bem otimizado para essas configurações. As configurações que foram aplicadas automaticamente ficaram no alto e sim, alguns pequenos trechos ainda é possível sentir um gargalo de performance, mas nada que não possa ser ajustado.
Um bug que identifiquei não foi durante a gameplay, mas sim nos menus do jogo. Ele vem com aquele borrão de movimento (o tal Motion Blur) ativado. Normalmente eu desligo essa opção, porque acho que minha configuração acaba ganhando um pouco mais sem isso. E para a minha surpresa, o jogo simplesmente disse “ABANDONE ESSA ESPERANÇA DE DESLIGAR ISSO, VÓS QUE CONFIGUREIS ASSIM!”.
Simplesmente a opção está como desativada, mas permanece ativa no game. Então, se você for jogar essa demo, saiba que algumas opções do menu ainda não funcionam em sua totalidade.
… E o saldo?!
Bom, nem era para ter uma análise da demo desta forma, mas The Alighieri Circle: Dante’s Bloodlines é um jogo interessante e com potencial. Infelizmente eu acho que a demo ainda não apresenta o game de uma forma tão efetiva assim, mas se tem A Divina Comédia e tem videogames, certamente tem minha atenção.
Estou ansioso para ver o resultado desse game e trazer novas impressões aqui para vocês. Até lá, o jeito é ter esperança e não abandoná-la na porta de entrada.




