SIFU (Playstation 5) – Análise

Game de artes marciais foi um dos destaques do primeiro trimestre de 2022 - Imagem: Reprodução

Primeiramente, eu queria iniciar falando uma coisa sobre o que você irá ler aqui, amigue leitore: esta não é apenas uma análise sobre o jogo SIFU, mas sobre a minha frustração. Ao longo dessa análise, falarei um pouco mais sobre isso. Mas espero que entenda que esta é uma visão unicamente MINHA sobre a MINHA EXPERIÊNCIA com o jogo e que, em vários momentos, pode não condizer com o que a maioria achou.

Bem, dados os devidos recados, partimos para a choradeira.

Quando eu era adolescente, lá em meados de 2004, 2005, tudo o que era sobre artes marciais estava numa crescente. Todas as terças-feiras eu ligava a TV na Band para assistir os filmes de Kung-Fu do Jet-Li (aliás, A Saga de um Herói é uma série de filmes bacana até hoje) e vez ou outra, do Jackie Chan e quando muito, raramente, do Donnie Yen. Dragon Ball também era um dos animes mais populares e Naruto ganhava o cenário (saudades Naruto Project. Quem viveu, sabe).

A porradaria era uma constante na vida do jovem Vinícius que morava na região metropolitana de Porto Alegre. E como não era diferente, os jogos de luta também eram a diversão do final de semana. Primos e amigos se juntavam num sofá, regados à Fanta Laranja (por questões financeiras) e aquele Miliopã (idem), engordurando e melecando controles piratas, na esperança de vencer o seu oponente.

Isso se potencializava com os fliperamas da cidade. Um lugar insalubre e pouco convidativo aos novatos (e que vez ou outra proporcionavam lutas além da tela da cabine). E claro, as locadoras. Saudades do tempo que custava pouco pra se divertir. Chamar os amigos e fazer algumas horinhas de The King of Fighters e Tekken, pra ver quem era o melhor da turma. Foi num desses lugares que aprendi a sequência da “Tela Branca do Akuma” em Street Fighter Alpha 2.

Quando SIFU, jogo desenvolvido pela francesa Sloclap foi anunciado, pensei comigo “acho que é uma volta interessante de um jogo de ‘briga de rua’ com aquela vibe dos filmes que eu assistia na adolescência”. E de fato é.

SIFU é um jogo beat n’ up com elementos rogue-lite. Nele, assumimos o papel de um (ou uma) jovem (isso é definido ao iniciar uma partida) que viu seu pai, um grande mestre do Kung-Fu ser assassinado a sangue-frio por um de seus pupilos e seus capangas. Passados alguns anos, nosso personagem cresceu com o instinto de vingança dentro de si e parte em busca dela.

Ao analisarmos o enredo do jogo, ele não soa nada que já não tenhamos visto em algum momento, ou que traga algo de novo. Em SIFU, a história é apenas um pano de fundo bege que não trará grandes reviravoltas ou surpresas no seu decorrer, pois o jogo não tem a intenção de trazer uma história aprofundada, mas cativar o jogador através de sua gameplay.

 

Um jogo de luta em uma nova roupagem

 

SIFU é um jogo sobre o domínio de uma técnica de luta. E isso pode soar até um pouco estranho para quem não jogou o jogo, por que em tese, dominar o combate de um jogo não parece uma tarefa muito difícil. Porém, é aqui que um pouco da minha frustração com o jogo começou. Não necessariamente o seu objetivo no jogo será apenas partir para o ataque ou jogar em um modo mais agressivo, como outros jogos desejam que você jogue, colocando o jogador em pequenas arenas com um número de inimigos a serem derrotados para que o caminho permaneça livre para avançar. SIFU é um jogo estratégico, é sobre analisar o seu oponente e entender que, sim, é necessário dominar o seu combate, mas isso também significa saber o momento certo de atacar e de se defender.

A primeira coisa que o jogo nos mostra é que é preciso dominar a esquiva, o recuo e procurar brechas nos seus oponentes para seguir no jogo. Nosso personagem possui em um ponto específico do HUB de missões, um local específico para que o jogador possa treinar e compreender toda a mecânica de combate do jogo, podendo lutar contra um NPC (personagem não-controlável) que o jogador pode determinar se ele será mais focado em se defesa ou agressividade. Ali, o NPC irá mostrar alguns dos golpes que os adversários dos estágios utilizarão para parar o seu avanço.

 

Dominar o combate em SIFU é o grande desafio para não se fu… – Imagem: Reprodução

 

Mas porque houve frustração da minha parte? Bom, aparentemente eu não consegui, mesmo ciente disso, absorver e dominar essa mecânica. Muito disso eu atribuo ao fato de que jogos de luta – sobretudo em modos competitivos – nunca foram o meu forte. É claro que já joguei jogos de luta, mas de maneira sem buscar uma dedicação de domínio de combos, de sequências de golpes que me dessem vantagem. Sempre por puro entretenimento.

Porém, SIFU se mostra o oposto disso. Se você procura aqui uma jogatina por puro entretenimento, buscando por algo parecido com um “briga de rua” padrão, sinto dizer que ele não é um jogo que está adequado para jogadores que não possuem um grau de familiaridade com modos competitivos de luta. Aqui, é vital para o seu avanço que você tenha dedicação e domínio pleno da arte do kung-fu para não frustrar seu avanço.

 

O tempo passa, o tempo voa…

No jogo, precisamos passar por quatro estágios até chegarmos ao objetivo final. Nesses estágios, além de enfrentarmos diversos capangas dos chefes principais de cada área – que possuem pouca variedade, mas que em determinados momentos, devido a aspectos que vou falar mais pra frente, podem dar trabalho – podemos coletar alguns documentos que irão contar um pouco mais da história daquele universo e dar algumas informações sobre os personagens da trama. Além disso, é possível coletar itens que irão abrir atalhos, para o caso de repetir os estágios.

Como SIFU trabalha com elementos rogue-like, repetir estágios em busca de um desempenho melhor pode ser uma constante no jogo. Isso dependerá muito do seu desempenho e domínio do combate.

Iniciamos nossa aventura com 20 anos, e nosso personagem possui uma espécie de amuleto que permite ele voltar a vida a cada derrota que ocorrer. Porém, o custo disso será a sua idade. Ao falharmos uma vez, um ano é acrescido a nossa idade, portanto, teríamos 21 anos. Ao falhar duas vezes, dois anos são acrescidos dessa idade e assim, sucessivamente. Porém, quanto mais velho ficamos, mais dano provocamos nos inimigos, mas também sofremos mais com os golpes sofridos, devido a perda de resistência natural do corpo.

 

Nosso personagem envelhece ao falharmos. Quanto mais velho, mais experiente no Kung-Fu. Mas há um custo a se pagar. – Imagem: Reprodução.

Isso remete muito àquela imagem do mestre sábio, que treinou por toda uma vida desenvolvendo sua técnica marcial e se aprimorando cada vez mais, pra que um dia pudesse passar seu conhecimento a um pupilo, já que ele está muito velho e precisa se manter vivo através de sua técnica, já que seu corpo sente a ação do tempo. Aliás, vale destacar que isso é muito presente nas narrativas dos filmes de Kung-Fu. Por exemplo, em “A Lenda do Herói”, estrelado por Jet Li, esse papel do mestre fica apoiado na figura materna do personagem Fong Sai Yuk. Ela, como uma exímia lutadora, promove cenas incríveis de luta ao lado do filho, além de quebrar um pouco o paradigma do mestre de cabelo e barba branca, que vive isolado em uma montanha. Muito da construção do personagem tanto como guerreiro, como pessoa, vem dos ensinamentos de sua mãe.

Ao chegamos aos 70 anos e falharmos, reiniciamos o estágio do início, resetando tanto a nossa idade como nossas habilidades conquistadas no progresso. Ao eliminarmos os oponentes, adquirimos pontos de experiência que podem ser trocados em altares específicos – ou através de uma árvore no HUB principal, ao concluir os estágios – por algumas habilidades de combate novas que ajudarão a tornar seu caminho menos difícil. Porém, ao desbloquearmos essa habilidade uma única vez, ela não é permanente. É preciso juntar uma quantidade razoável de experiência para destravá-la em definitivo. Assim, ao falhar, mantemos as habilidades e não precisaremos mais juntar pontos de experiência.

Além do domínio do combate, o sistema de punição do jogador a falhas também pode ser algo frustrante, caso você não esteja familiarizado com esse tipo de jogo. E acredite: você irá SIFU muitas e muitas vezes. Portanto, esteja ciente de que repetir estágios para tentar conclui-los com a menor idade possível, será uma constante nas suas primeiras jogatinas.

 

De novo! De novo! De novo!

Nunca pratiquei artes marciais na minha vida, mas tanto em filmes de luta quanto em animes e outras mídias que retratam essa prática, a repetição é uma constante. Em SIFU, não é diferente: aqui, é imprescindível que o jogador treine constantemente, estude bem os seus oponentes, entenda qual o melhor momento para o ataque e tenha total ciência de que a defesa e a esquiva serão suas principais aliadas no jogo.

Inimigos padrões possuem uma padronização de ataques que variam muito pouco. Assim que você percebe o move set (modo de comportamento e movimentação) de cada um deles, as coisas começam a ficar menos problemáticas. Porém, em ambientes em que há muitos inimigos, é possível que esse processo demore mais.

Os inimigos também podem utilizar armas e arremessar objetos contra você. Então, é importante que inimigos que estejam munidos de alguma arma sejam eliminados primeiros. Ao executar uma série de golpes contra o oponente, você pode pegar sua arma, o que ajuda e muito a eliminar oponentes mais facilmente.

 

Repetir estágios e lutar contra vários inimigos vão te ajudar a entender melhor o jogo. – Imagem: Reprodução

 

Alguns oponentes, ao serem nocauteados, irão dar a oportunidade do jogador de fazer uma movimentação especial. Isso é indicado ao aparecer um marcador com botões específicos, que além de finalizar o inimigo, recupera uma pequena porcentagem de vida do personagem. Essa porcentagem pode ser aumentada utilizando a experiência para adquirir novas habilidades passivas. Já outros, entram numa espécie de modo frenesi, tornando-se mais agressivo e resistente. Esse tipo de inimigo merece atenção, pois estando mais forte e mais agressivo, tornam-se um perigo em grandes grupos de inimigos.

Aprender a lidar com essas situações exigirão do jogador atenção e muita, MUITA paciência. Por isso, utilizar o modo de treino no HUB do jogo é sempre válido para estudar as mais diversas possibilidades de lidar com inimigos. E repetir estágios já concluídos também pode ajudar você a desenvolver o seu instinto de um mestre do kung-fu.

 

Quem quer SIFU?

Em suma, SIFU é um jogo que poderia ser muito além do que ele é. Um game que poderia ter um desenvolvimento melhor de sua história, fugindo um pouco dos clichês que já vimos sobre o Kung-Fu em outras mídias e poderia ser mais recursos para novos jogadores. Em momento algum o jogo oferece a mão para guiá-lo nessa trajetória, sendo de completas responsabilidade e interesse do jogador em dedicar-se a aprender o que o jogo tem a oferecer e dominá-lo plenamente.

Quem espera uma aventura focada no esmaga-botão básico, sem pensar em uma estratégia, analisar seus adversários e estudá-los repetidamente, assim como quem se dedica a jogos de luta de forma competitiva faz.

Não digo que ele é um jogo EXCLUSIVAMENTE para amantes de jogos de luta. Acho que ele pode ser acessível para todos que estejam dispostos a reconhecer que ele exige, assim como no kung-fu, um preparo, um treino. Aqui, mente e corpo devem estar unidos: você tem que ter em mente que é preciso aprender do que seu personagem é capaz, e usar o seu avatar no jogo (corpo) para moldar um cenário propício para o contragolpe.

SIFU pode ter diversas similaridades com jogos de luta tradicionais, mas lembre-se: você está lutando contra inimigos pré-programados que irão oferecer um desafio digno. Porém, ele não deve ser comparado somente com esse estilo de jogo, pois outros elementos também compõe o que esse jogo é. Apesar dele trazer elementos que reavivaram memórias passadas, de filmes que eu gostava de assistir na minha época de adolescente e frequentador de locadoras de videogames, como citados no início dessa análise, sinto que eu sou excelente espectador de artes marciais, mas um péssimo lutador.

Me dói dizer que eu achei mais legal a experiência de assistir alguém jogar do que jogá-lo, por que simplesmente eu não consegui dominá-lo por completo. E não porque o jogo é problemático ou injusto. Mas é porque aquele garoto que frequentava locadoras e fliperamas do bairro acabou ficando por lá.
Novas experiências surgiram nesse processo, e os jogos de luta acabaram ficando de lado na minha vida. Hoje, eu ainda os consumo, mas como espectador, pois tenho uma habilidade limitadíssima para esse gênero. Assim como o nosso personagem, envelheci e desenvolvi algumas técnicas videogueimeiras, mas não para jogos de luta.

Se você gosta de um desafio alto, é dedicado em aprender a dominar as mecânicas de luta do jogo e não vê problemas em fazer loopings de gameplay para aprimorar sua técnica, mesmo que isso lhe custe alguns anos (no jogo), SIFU é um game perfeito para você. Se você, assim como eu, está esperando um jogo tradicional de “briga de rua” que se jogava em máquinas de fliperamas e locadoras insalubres, em que seu único objetivo é derrotar algumas hordas de inimigos apenas pelo instinto de amassar botões, sem estudá-los previamente, você pode se fu… Quer dizer, SIFRUSTRAR.

 

Este jogo foi gentilmente cedido pela Sloclap para a realização dessa análise.

Vinícius Vidal Rosa: Técnico em informática e estudante de jornalismo. Faz do seu tempo livre, uma maneira de levar informação e falar sobre o que gosta: Games e nerdices em geral.
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