Relatório interno revela assédio moral dentro do estúdio brasileiro Wildlife

Relatório interno divulgou diversas práticas tóxicas - Imagem: Reprodução

Em 2011, os irmãos Arthur e Victor Lazarte fundaram a Wildlife Studio, focado principalmente no mercado de jogos mobile. De lá para cá, o estúdio cresceu, tornando-se uma empresa valiosa no mercado. Os valores internos da empresa se pautavam em proporcionar “um ambiente em que todas as etnias, gêneros e origens que partilham dos seus valores, sintam-se seguras”.

No entanto, os bastidores da empresa revelam uma realidade diferente desses valores. Em maio de 2020, o departamento de recursos humanos do estúdio divulgou um relatório de 22 páginas que descreve diversas incidências de diferenças salariais para homens e mulheres que ocupam o mesmo cargo, além de discriminação de gênero e um ambiente bastante tóxico. A apuração do material foi feita pelo site Rest of World, que realizou uma série de entrevistas com funcionários e ex-funcionário da empresa.

A Wildlife Studios possui um valor de mercado de US$3 bilhões. – Imagem: Reprodução.

As denúncias internas presentes no relatório detalham casos de estereótipos sexistas, assédio moral, além de uma disparidade salarial entre homens e mulheres. Alguns dos problemas relatados destacam a promoção de uma funcionária ao cargo de gerência, mas com uma diferença salarial de 30% menos, em relação aos homens que ocupam o mesmo cargo. Além disso, outro ponto abordado no relatório aponta que uma das personagens femininas representadas em Tennis Clash aparece utilizando roupas “completamente inapropriadas para uma jogadora de tênis real”, apelando para um estereótipo totalmente sexual.

O documento também aponta diversas declarações preconceituosas e que vão na contramão do que a empresa prega publicamente. “Não estamos aqui para quebrar estereótipos, mas sim para reforçá-los”, teria declarado um funcionário do alto-escalão da empresa.

Os problemas internos da indústria

O caso vêm a público após uma série de problemas semelhantes em outras empresas, como os recentes relatos de assédio moral e sexual dentro da Activision Blizzard. Em novembro, o Wall Street Journal divulgou uma série de reportagens que colocavam o CEO da empresa, Bob Kotick contra a parede. Segundo o jornal, o executivo sabia das más condutas dentro da empresa e nada fez para que esse tipo de comportamento fosse coagido, acobertando muitos funcionários. Situação semelhante a que ocorreu também dentro do estúdio da Ubisoft em Singapura. O caso já está sob a investigação das autoridades locais.

Wildlife se manifestou sobre o caso

Em contato com o Rest of World, o estúdio Wildlife disse que “leva a sério todas as denúncias presentes no relatório”. A empresa também declarou que possui um forte programa para proporcionar um ambiente seguro para seus funcionários, reforçando os valores presentes em seu Código de Conduta.

Em 2020, a empresa  criou um “Fale Conosco” para que funcionários e ex-funcionários pudessem realizar denúncias de forma anônima sobre comportamentos abusivos dentro da empresa. Porém, um dos ex-funcionários, que utilizou o canal para apresentar uma denúncia, não observou nenhuma medida adicional. Outros casos parecidos também foram feitos pelo suporte, o que levantou suspeitas sobre a sua eficácia.

Abaixo, você confere alguns trechos da nota:

A Wildlife Studios esclarece que algumas informações fornecidas ao portal Rest of World não são verdadeiras. Há cerca de dois anos, a empresa recebeu uma denúncia vinda de três funcionárias, que disseram ter conversado com outros colaboradores para preparar um documento que foi então encaminhado para a área responsável.

Tão logo tomamos conhecimento sobre os fatos descritos no material, iniciamos um processo interno para sua apuração que resultou na demissão de dois colaboradores e medidas disciplinares aplicadas a um terceiro envolvido nas denúncias. 

Somos gratos a todas as pessoas que apontam problemas na companhia e sabemos que diversidade é um tema presente na indústria de tecnologia e, especificamente, na indústria de games. Por isso a Wildlife investe em garantir um ambiente inclusivo por meio de diversas iniciativas como grupos de representação de minorias, treinamentos e sessões de diálogos com os principais líderes de diversidade do Brasil. A Wildlife monitora o progresso na carreira dos diferentes grupos e tem orgulho de dizer que homens e mulheres são promovidos na mesma proporção.  E também trouxemos para nosso time um colaborador especialista em pagamento justo e autor do livro ‘Fair Play: How to Get a Raise, Close the Wage Gap, and Build Stronger Business’, com o objetivo de continuar trabalhando para um ambiente de equidade.

Para ler a nota completa, clique aqui.

(Matéria atualizada em 19 de dezembro de 2021, as 10h33, após o posicionamento oficial da empresa ser recebido via e-mail).

Fonte: Rest of World

Vinícius Vidal Rosa: Técnico em informática e estudante de jornalismo. Faz do seu tempo livre, uma maneira de levar informação e falar sobre o que gosta: Games e nerdices em geral.
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